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Um paralelo entre orquestra e empresa

A busca da qualidade exige concentração, atenção, memória, precisão, exatidão, responsabilidade, ética, força individual e, ao mesmo tempo, trabalho em equipe

Patricia Andrade

Excelência e qualidade são termos atuais dentro de uma administração moderna, que busca ser competitiva, num mercado globalizado como o de hoje. Competência técnica, motivação pessoal e capacidade de trabalho em grupo são algumas das principais características que levam uma empresa a conquistá-las. São estas características também que fazem uma orquestra sinfônica ser conceituada em seu meio.

Esta proximidade levou, há nove anos, o maestro Walter Lourenção a criar o programa de treinamento Sinfonia Empresarial. Nele, diz o maestro, "utilizo a orquestra como paradigma para materializar conceitos teóricos que o espectador já possui ou está adquirindo durante o evento nas áreas de marketing, comunicação, recursos humanos, qualidade e vendas". Destinado a todos os extratos de uma organização, o programa surgiu, quase que acidentalmente, num congresso de RH, onde o maestro Lourenção foi convidado a falar antes de se apresentar com a Orquestra de Câmara do Brasil. Utilizando sua experiência administrativa e musical, traçou um paralelo entre uma orquestra e uma empresa. A idéia funcionou tão bem que no mesmo dia ele recebeu vários convites para novas apresentações.

A partir daí foram realizados mais de 250 eventos em organizações como a ABN-Amro Bank, Antarctica, American Express, Arisco, Banco Itaú, Basf, Ernst Young, Ericsson, Esso, General Motors, Gessy Lever, Grupo Abril, Kaiser, Lacta, Nestlé, OPP Petroquímica, Oracle, Price Waterhouse, Rede Globo, Scania, Unibanco e Unisys, entre outros. Foram desenvolvidos, ainda, programas específicos para a Fundação Dom Cabral, FGV-SP e MBA da Fea-Fia/USP. Segundo o maestro, "todos os espetáculos são diferentes e cada um deles tem seus próprios objetivos e espectadores específicos".

O que se repete é a qualidade dos músicos que o acompanham na Orquestra de Câmara do Brasil. Considerada pela crítica especializada como uma das melhores da América do Sul, ela é composta por professores da Orquestra Sinfônica da USP, Unicamp e Teatro Municipal de São Paulo. "Para se falar em qualidade, trabalho de equipe e auto-superação é preciso ter um grupo de primeira linha, caso contrário seria uma incongruência", afirma. A qualidade, segundo o maestro, deve ser uma característica inerente ao trabalho. "O trabalho realizado em qualquer área deve ser como o de um músico, que está sempre pensando em melhor qualidade, maior precisão, afinação, interpretação e melhores instrumentos. Eles estão sempre em treinamento e aperfeiçoamento", diz.

Em seu paralelo, o maestro Lourenção destaca, entre as semelhanças de uma empresa e uma orquestra, a composição de ambas. A primeira é formada por departamentos e a segunda por naipes. As duas são células independentes e possuem sua própria linguagem. Entretanto, é necessário que haja uma intercomunicação entre elas para que a organização, como um todo, obtenha um resultado positivo. A maneira como elas influenciarão umas às outras é o que será regido pelo maestro ou pelo principal executivo. "Se algo não funciona bem dentro de uma orquestra, a culpa é do regente. Isso sem dúvida também se aplica a uma empresa", afirma.

O trabalho em equipe é outro item fundamental. "A competitividade e a qualidade dependem de todos os extratos de uma organização", garante. Segundo ele, o talento individual é importante, mas é necessário que todos estejam afinados com o mesmo objetivo. "Um músico é como um operário: ambos são responsáveis pela qualidade do produto final. O músico dentro de uma orquestra não se deleita com a música, ele produz uma parte dela, assim como o operário que monta geladeiras e só vai vê-las pronta na loja", diz. Deste modo, salienta, "é necessário que se observem alguns cuidados para que uma empresa chegue à qualidade obtida por uma orquestra", conclui.

Maestro do Teatro Municipal de São Paulo e membro do Conselho Deliberativo da USP, Walter Lourenção é formado em Psicologia, Sociologia e Filosofia, com especialização em Estética, História da Filosofia Moderna e Ciência. Além disso, é especialista em Arte, convidado pelo Departamento de Estado dos EUA para estudo de métodos e sistemas de produção cultural. Foi, ainda, fundador de inúmeras orquestras, corais e grupos de câmara e diretor de programação do Museu de Arte de São Paulo (Masp) durante 10 anos. Na rádio Cultura/FM, apresenta um programa com músicas clássicas nacionais e internacionais.

Serviço: Arte & Comunicação (011) 5181-4182

RH EM SÍNTESE Nº 27 – MAR/ABR 1999 - ANO V - PÁGINAS 30 E 31