| * Marcelo Mariaca A
globalização impôs novas exigências para os líderes de empresas globais, além
do conhecimento de gestão, da capacidade de inovar, de se adaptar de forma rápida
e eficiente à nova realidade e de prever cenários e o futuro. Outro grande desafio
é trabalhar com times de diversos países, multiculturais, e criar relacionamentos
e alianças estratégicas ao redor do mundo que ajudem a desenvolver os negócios.
Mais ainda, a gestão de capital humano
tornou-se mais complexa na globalização, pois em muitos casos não é possível manter
o relacionamento interpessoal. Hoje, grande parte do relacionamento entre os executivos
e seus pares e liderados é mediada por tecnologias, como videoconferência, conference
call ou pela internet. Daí, o conceito de líder virtual.
Pesquisas realizadas em alguns países revelam que a arte da liderança virtual
é a terceira habilidade mais importante que o verdadeiro líder global deve desenvolver
- tanto para motivar times de diferentes culturas e diversos "sotaques" a cumprir
os objetivos e atingir as metas da corporação quanto para construir alianças e
parcerias estratégicas, dentro de parâmetros de confiança, credibilidade e ética.
O sucesso ou o fracasso das alianças está relacionado ao cumprimento de regras.
A comunicação torna-se vital nesse processo. Para superar os desafios impostos
pela globalização, o líder verdadeiro precisa preservar a comunicação mais honesta,
íntegra e no tempo certo, de modo a obter o espírito de colaboração dos times
e dos parceiros estratégicos. Saber se comunicar, ou seja, compreender o que as
pessoas dizem e se fazer entender, tornou-se, portanto, uma credencial importante
para o executivo - e as empresas estão preocupadas com isso. Em
visita ao Brasil, em outubro, a consultora internacional em liderança empresarial
Judy Cohrs relatou um episódio em que um jovem executivo, com currículo brilhante
e que acabara de assumir o posto de CEO numa corporação, fracassou no primeiro
conference call que realizou com executivos da Bélgica, Austrália, Japão e Estados
Unidos. Seu objetivo era transmitir as primeiras linhas de sua gestão, mas a conversa
durou poucos minutos porque ele não conseguia se fazer entender, nem compreendia
o que os executivos falavam. Não basta,
portanto, falar o idioma universal dos negócios, no caso, o inglês. A não-compreensão
dos sotaques regionais e das diversidades sociais, culturais e econômicas - em
certos casos até religiosas - pode obstruir o relacionamento e restringir a atuação
do líder junto à equipe global. Para
construir relacionamentos sólidos, o líder deve empenhar-se em perguntar e ouvir,
entender e respeitar a diversidade não só de opiniões, mas também cultural, e
estimular uma comunicação objetiva e transparente, definir regras e responsabilidades
claras, de modo a estabelecer a credibilidade. Quando se fala em experiência internacional,
das empresas globais, deve-se entender que o executivo necessita não só conhecer
outro país, mas também entender as características do mercado e da cultura de
outras sociedades e saber se comunicar de forma efetiva.
Ex-vice-presidente sênior da Lee Hech Harrison, consultoria especializada em transição
de carreira com 240 escritórios espalhados pelo mundo, Judy Cohrs garante que
desenvolver nos executivos a arte da liderança virtual e estimular os times multiculturais
são ingredientes para o sucesso das organizações globais e daquelas que estão
querendo ultrapassar as fronteiras locais. A
globalização criou as organizações multiculturais, e essa diversidade é importante
para o mundo dos negócios. A inovação, por exemplo, é resultado da diversidade.
Empresas que atuam globalmente têm visões diferentes de mercados e produtos e,
em função disso, podem ampliar mais facilmente seus negócios. Mas cabe aos líderes
globais a condução dessa dinâmica, e, para isso, eles devem exercitar qualidades,
como capacidade de decidir em momentos de conflitos, trabalhar com a comunicação
voltada para diferentes culturas, contribuir para que tarefas e metas sejam de
fato cumpridas e no tempo certo, ter sensibilidade para aproximar pessoas e gerar
conhecimento mútuo. O executivo brasileiro
possui algumas competências, como a flexibilidade diante das mudanças alucinantes
no mundo dos negócios e maior tolerância cultural, mas precisa exercitar melhor
a capacidade de se comunicar virtualmente, por meio dos e-mails, das videoconferências
e e-mails. É preciso ter consciência de que as novas tecnologias são ferramentas
importantes de gestão, mas cabe ao executivo global usá-las com inteligência,
saber que as inovações tecnológicas só são boas se compatíveis com outros sistemas.
O segredo, no entanto, está no relacionamento, ou seja, o executivo precisa conversar
com seus pares em outras equipes e seus liderados. *Marcelo
Mariaca é fundador e sócio-diretor-presidente da Mariaca, parceiro global
para o Brasil da Lee Hecht Harrison e da InterSearch Worldwide Ltd., e professor
do MBA da Brazilian Business School (BBS), associada à Universidade de Pittsburg.
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