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Superando os próprios limites

Enfrentar um desafio exige preparo físico e mental, mas principalmente dedicação e estar bem consigo mesmo, tanto no aspecto psicológico quanto espiritual

Patrícia Andrade

Acreditar no próprio potencial, ter determinação e dedicação. Estes foram os ingredientes que levaram o economista e consultor da Associação Brasileira dos Bancos Comerciais Múltiplos, Roberto Troster, ao topo dos 6.959 metros do monte Aconcágua, na fronteira entre o Chile e Argentina, em fevereiro deste ano. O Aconcágua é a montanha mais alta da América do Sul e uma das mais perigosas para os alpinistas. Enfrentá-la exigiu seis meses de extrema dedicação, nos quais Troster treinou de 2 a 3 horas por dia, cinco vezes por semana. "Comecei a treinar duro em julho do ano passado para ter preparo físico e espiritual", diz Troster, que é autor dos livros Introdução à Economia (1998), Plano Real - Pára ou Continua? (1997) e Overbanking (1996), todos da Makron Books.

A expedição, composta por três guias e seis alpinistas, partiu de São Paulo em 31 de janeiro e iniciou a escalada no dia 2 de fevereiro. Foram doze dias de muito esforço, nos quais a equipe enfrentou ventos fortes, temperaturas que chegaram a 20º negativos, ar rarefeito e alguns casos de frostbite. Em média a expedição caminhava de 6 a 8 horas diariamente, exceto no último dia quando a escalada durou 12 horas. Para recarregar as energias, a equipe descansou durante dois dias, quando atingiu as altitudes de 4.000 e 6.000 metros.

No início, mulas carregaram todo o equipamento e a alimentação. Entretanto, a aproximadamente 4.000 metros a expedição não pôde mais contar com elas, já que o caminho torna-se muito íngreme e os animais não resistem às condições climáticas. A partir daí, para cada dois dias de caminhada avança-se um. No primeiro dia são levados os alimentos e parte do equipamento, acomodados em sacolas de marinheiro. Tudo é amarrado em pedras para impedir que o vento forte traga alguma surpresa desagradável. A equipe volta ao ponto de partida e dorme na barraca, que só será desmontada e seguirá viagem no dia seguinte com o restante do material. A barraca é pouco menor que uma cama de casal e abriga 3 pessoas.

Segundo Troster, é preciso ser muito racional com o peso e com a qualidade do que se leva, para evitar um desgaste desnecessário. Outra preocupação é a alimentação. "A quantidade de calorias para manter-se nesta situação é de 8.000 contra as 2.000 exigidas numa altitude normal", explica. Para conseguir este nível de calorias é preciso uma alimentação rica em carboidratos. O dia começa com um prato quente e granola, seguido pelo almoço, que conta com chocolates, barras energéticas, amêndoas, queijos e salame. A noite, outro prato quente geralmente à base de massa. A bebida é a água, ou melhor, gelo derretido que está longe dos padrões conhecidos como inodor e incolor. Troster diz que é preciso, ainda, estar sempre atento aos sinais do corpo. "Uma gripe ou uma diarréia podem significar o ponto final da viagem", garante.

Para o economista, a aventura é a realização de mais um sonho. Em 1998, Troster já havia escalado, junto com dois amigos e de uma maneira bem mais amadora, o monte Kilimanjaro, no continente africano. "Para mim a África era sinônimo de mistério e o Kilimanjaro um sonho de menino. O primeiro filme que eu vi foi ‘Tarzã’ e o monte estava lá", diz.

Bem mais elaborada, a viagem para o Aconcágua pôde ser dividida, segundo ele, em duas partes. A primeira é a decisão e a prioridade dada à viagem. A segunda consiste em se estruturar, providenciar todo o equipamento, que dificilmente é encontrado no Brasil, além de agendar férias e começar a se preparar fisicamente. "Mesmo que eu não tivesse chegado ao cume me acharia realizado. O fato de embarcar no avião preparado para isto foi a parte que mais me exigiu", afirma Troster.

Segundo ele, raça e determinação são essenciais, mas não bastam. Só neste ano, cinco pessoas morreram na tentativa de escalar o monte e, no ano passado, o alpinismo brasileiro perdeu os campeões Mozart Hastenreiter, Alexandre da Silva Oliveira e Othon Leonardos Ariel Palácios nas mesmas condições. "A raça e a determinação têm seu limite no preparo físico e espiritual. A chegada ao topo é resultado de um trabalho realizado antes", conta.

A conquista do Aconcágua foi para toda a equipe um misto de cansaço e alegria. "Estar no teto do mundo traz uma sensação incrível de liberdade, mas o sentimento de glória é vencido pelo cansaço", ressalta. Para ele, o prazer vem a longo prazo e melhorou porque conseguiu se superar. "Quando se tem 48 anos, o desafio é muito maior", argumenta Troster. Segundo ele, mais do que estar em um cenário maravilhoso e realizar um sonho, a aventura foi uma viagem interior. "Um dos momentos de glória foi o vôo de um condor sobre o lugar onde estávamos", diz. Troster não pensa em novas aventuras, mas sente-se pronto para qualquer desafio. A conquista do monte Aconcágua foi, antes de tudo, sua superação pessoal. Depois dela, ele diz que se sente mais forte e capaz para transpor qualquer obstáculo.

Serviço: Roberto Troster (011) 246-2321

RH EM SÍNTESE 27 – MAR/ABR 1999 – PÁGINAS 24 E 26