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RH no mundo. Âncora ou reboque das mudanças?

A tecnologia é importante, mas ela apenas garante que a empresa não vai ficar para trás. Quem levará a empresa para frente, rumo ao futuro, serão as pessoas

Roberto Shinyashiki*

O mundo de hoje não é igual ao de ontem. Na atualidade, a vida se transformou em um campeonato permanente: assim que termina uma partida, começa uma nova. Em outras palavras, isto significa que a concorrência aumentou. E o profissional de Recursos Humanos tem um papel-chave nesse novo cenário que se delineia.

Hoje, a área de RH tem tanta importância quanto a área financeira há quatro ou cinco anos. Naquela época, se o produto não era bom ou se a estrutura administrativa era ruim, bastava um bom administrador financeiro para compensar esta situação. E a empresa chegava, então, a dar lucro. No presente, tudo isso mudou, a começar pelas margens de lucros das empresas, que tendem a ser cada vez menores. Assim, portanto, serão as pessoas que irão definir o sucesso ou o fracasso de uma organização. A tecnologia certamente é importante, mas ela apenas garante que a empresa não vai ficar para trás. Quem levará a empresa para frente, rumo ao futuro, serão as pessoas.

Um profissional desqualificado usa um computador como se fosse uma simples máquina de datilografar, porque este é o seu modo de pensar. É preciso mudar esta mentalidade e muitas empresas já estão se dando conta disso. Existem organizações que chegam a propiciar 200 horas mensais de treinamento para suas equipes. Por exemplo, no Japão, não se faz um novo modelo de carro se toda a equipe não estiver treinada. Pode ser que a empresa leve seis meses para treinar a todos, mas a diferença disso será percebida na qualidade do produto.

Isso é básico, serve para qualquer área, e não adianta ficar sentado esperando tudo voltar a ser como antes. O impacto da tecnologia sobre o mundo imprime-lhe uma velocidade que tende a fazer a competição aumentar cada vez mais. A saída será, então, desenvolver menos mão-de-obra e mais colaboradores.

No entanto, existe uma grande dificuldade na implementação de novas idéias, e aqui reside o grande desafio dos profissionais de RH. Todos falam de qualidade total, empowerment, mas dificilmente se implementa esses valores ao nível da consciência das pessoas. E por quê? Por causa da ausência de uma estratégia de gente. Hoje, é preciso ir além da conduta e trabalhar para a mudança de mentalidade. RH não pode ser apenas um centro de desenvolvimento de habilidades, sendo necessário desenvolver "Seres Pensantes". Afinal, cada vez mais o trabalho pesado ficará a cargo de guindastes e tratores.

Nesse sentido, há sete desafios que se apresentam aos líderes da nova era que se inicia no mundo dos negócios:

1) Conhecer o negócio da empresa: É necessário dominar as metas, os pontos fracos e fortes da empresa para motivar em sua equipe o compromisso com a mudança. Conhecer o negócio da empresa significa ter competência para intuir, imaginar, farejar novos negócios e também os obstáculos que irão aparecer no meio do caminho. O líder-campeão sabe do que as pessoas vão precisar, antes que elas mesmas saibam. Suas palavras motivam pelos fatos, suas idéias são baseadas na realidade, as hipóteses fazem parte das reflexões e suas ações são alinhadas com a organização;

2) Administrar o presente enquanto cria o futuro: Criar, através de ações diárias, a solidez necessária para a empresa dar o salto rumo ao podium. O verdadeiro líder sabe que o barco não pode parar para construir o futuro. Por isso, trabalha sintonizado com as três dimensões do tempo: o passado, para não repetir erros já cometidos; o presente, porque é nessa dimensão do tempo que as ações acontecem; e principalmente, o futuro, pois sabe que nele se encontram todas as ameaças e oportunidades;

3) Transformar ameaças em oportunidades: Quando parece não haver solução para um problema, deve-se ficar ainda mais estimulado a usar a criatividade para criar uma nova maneira de enfrentar o desafio. O líder-campeão tem a capacidade de dar o salto no escuro. Enquanto as pessoas se sentem perdidas diante dos obstáculos, ele sabe criar novas oportunidades. O campeão se alimenta dos desafios que encontra pela frente, porque não tem medo do desconhecido;

4) Criar paixão por resultados: O crescimento de uma empresa depende do aprimoramento constante de toda a sua equipe. O líder-campeão sabe que a empresa cresce com os bons resultados. Sabe que a sua equipe vai aumentar a auto-estima à medida que conseguir o aprimoramento da sua performance. Atua em relação aos colaboradores da mesma forma que o treinador de um time de atletas olímpicos, ou seja, estimulando todos a superar os próprios limites;

5) Facilitar o aparecimento de novos líderes: É preciso estimular todos os membros da equipe a assumirem suas responsabilidades e comemorar o crescimento dos colaboradores. Para uma empresa crescer, é necessário que os seus colaboradores cresçam primeiro e isso só é possível a partir de um programa de evolução permanente. Empresas-campeãs são formadas por seres humanos campeões. São as pessoas conscientes, motivadas, treinadas, competentes e participantes que constroem cada uma das vitórias;

6) Criar equipes integradas e comprometidas: Os resultados hoje dependem da atuação de todo o time. A imagem de uma empresa são as pessoas que nela trabalham. Um time não significa apenas a união de bons jogadores, assim como o casamento não é simplesmente a união de duas pessoas. Na empresa, assim como no casamento e nos esportes, todos precisam desempenhar muito bem o seu papel para obter o melhor resultado. Os verdadeiros campeões sabem orientar e acompanhar o seu time, pois estão conscientes de que dependem dele para alcançar as mais importantes vitórias;

7) Evoluir sempre: Gostar de evoluir é fundamental, sempre. Para isso, deve-se deixar o passado para trás e partir em busca de novas vitórias. Estar vivo é estar em permanente evolução! O líder-campeão está sempre expandindo os seus horizontes e reavaliando suas atitudes. Crescer é difícil, mas o campeão adora esse tipo de trabalho. Sabe que a concorrência está sempre à espreita e subestimá-la é o primeiro passo para perder o lugar. Para fazer novas conquistas, é preciso deixar para trás as velhas, que já não são mais úteis.

Vencer os sete desafios é tarefa para todos os profissionais do futuro, sobretudo aqueles da área de Recursos Humanos, porque se constituem na âncora de todo esse processo de mudanças vivenciado na atualidade. Por trabalhar com o potencial humano em tempo integral, o profissional de RH sabe, como nenhum outro, que não existe empresa campeã se nela não trabalharem pessoas campeãs.

*Roberto Shinyashiki é escritor, consultor e presidente da Editora Gente

RH EM SÍNTESE 19 – NOV/DEZ 1997 – PÁGINAS 38 E 39