| A importância das pessoas saberem lidar com suas emoções em situações de tensão da vida moderna tem levado o debate sobre inteligência emocional para dentro das organizações Aceitos ou não, os conceitos sobre o controle e aproveitamento produtivo das emoções humanas causam polêmica e geram mudanças no modo de se enxergar as relações das pessoas no trabalho e com suas próprias vidas. O norte-americano Daniel Goleman, jornalista e psicólogo, PhD pela Universidade de Harvard, conseguiu acender ainda mais a polêmica com seu livro "Inteligência Emocional - A Teoria Revolucionária que Redefine o que é Ser Inteligente", Editora Objetiva, questionando o velho mito de que devemos sobrepor a razão à emoção. Ele sugere a busca de um equilíbrio entre ambas e, mais ainda, que é possível usar inteligentemente a emoção. Goleman propõe em seu livro (que está na lista dos mais vendidos em diversos países, inclusive no Brasil) que podemos lidar com as emoções, assim como lidamos com a matemática e a física, tendo maior ou menor talento segundo nosso grau de Q.E. (quociente emocional). Para ele, o conhecido Q.I. (quociente de inteligência) é insuficiente para determinar se alguém poderá ter sucesso ou não na vida, pois mede apenas algumas das funções cerebrais, especialmente a capacidade de fazer conexões lógicas e racionais. O psicólogo diz ainda que é preciso aprender a controlar e dominar pelo menos parcialmente os impulsos negativos, como ansiedade, melancolia, ira ou os ímpetos repressores, e que as "pessoas precisam perceber emocionalmente a si mesmos e aos outros". Dessa forma, as tensões da vida moderna – como risco de demissão, estresse, mercado competitivo e falta de tempo para o lazer – são situações que tendem a alterar o estado emocional de grande parte das pessoas, levando-as à beira do seu próprio limite físico e psíquico. O resultado é o desequilíbrio emocional. Percebendo o tamanho desse problema, as empresas passaram a incorporar o autoconhecimento, autoconsciência, empatia, auto-aceitação e intuição em palavras de ordem, transformando os funcionários em foco das atenções. "Quem transmite entusiasmo e tem paixão pelo que faz encontra mil e uma soluções para os problemas. É possível vencer medos e bloqueios com autoconfiança, auto-estima e autoconhecimento", ressalta Luiz Machado, doutor em letras, coordenador do Programa Especial de Desenvolvimento da Inteligência e da Criatividade da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autor do livro "O Cérebro do Cérebro", Qualitymark Editora. "A inteligência emocional não é o equilíbrio emocional, pois podemos ter diferentes reações para um mesmo fato, conforme o momento. Inteligência emocional é a busca constante do ser humano em adaptar-se ao meio", diz Machado. Em seu livro, o autor defende que a base da inteligência emocional se encontra no sistema límbico, no cérebro – um centro para onde convergem informações do meio externo e interno e que regula as emoções. Segundo Machado, inteligência emocional é a forma como a energia da emoção é colocada para fora e as pessoas podem abrir o canal dessa energia com auto-estima, autoconfiança, autoconhecimento, e paralisação das atividades de raciocínio através do relaxamento. Com o objetivo de conhecer como os funcionários lidam com suas emoções, e sabendo que muito do sucesso empresarial está ligado a esse fator, algumas organizações vêm implementando ações para o desenvolvimento do controle emocional das pessoas. Na Avon, multinacional de cosméticos, uma análise de perfil pessoal busca, entre diversas metas, o autoconhecimento e o autodesenvolvimento dos colaboradores. "Atualmente a inteligência emocional está inserida em nossas ações de ajudar os funcionários a lidarem com as emoções para o melhor resultado da organização. E uma maneira de desenvolver a inteligência emocional é o reconhecimento. É preciso harmonizar as emoções com todos", diz Eduardo Ribeiro, diretor de RH da Avon. Na opinião de Sandra Regina Gouveia Moreira, gerente da divisão de recrutamento e seleção da Manager, o que o conceito de inteligência emocional traz de mais positivo é a humanização dos processos necessários para melhorar os resultados da empresa. "As organizações deveriam, com esse conceito, visualizar o ser humano como um ser integral. Para isso, há cursos comportamentais, formas de integração de equipe e transparência na comunicação empresa-funcionário", analisa Sandra. Segundo ela, a partir do autoconhecimento, controle e conhecimento de suas emoções, conscientização dos seus atos na liderança de uma equipe e negociação, o ser humano desenvolve sua inteligência emocional. Para algumas pessoas, o termo inteligência emocional não seria o mais apropriado para essa discussão. Segundo Elizabeth Silveira Vecchio, doutora em psicologia e diretora da Magnus Consultoria a Serviço da Qualidade, há seis tipos de inteligências: linguística; lógico-matemática; musical; espacial e corporal-cinestésico. A sexta é a mecânica, integração da espacial com a cinestésica, reconhecida pela psicologia. "Já a inteligência emocional, não considero como tal, mas o termo ideal seria habilidade ou capacidade emocional. Isto significa percepção intrapessoal, que é a capacidade de entrar em contato com o seu mundo interno, e percepção interpessoal, que é usar a capacidade intrapessoal para entrar em contato com os outros", analisa. Quando se discute a predominância da razão ou emoção, é enfatizada a importância do equilíbrio. "As duas se complementam, pois a técnica, experiência, capacidade de enxergar além é fundamental, mas tudo isso se torna poderoso quando aliado à inteligência emocional. Caso contrário a pessoa será solitária", explica Carlos Alberto Diz, vice-presidente da Spencer Stuart, consultoria de recrutamento e seleção de executivos. De acordo com Fela Moscovici, psicóloga e consultora de empresas, é importante buscar o equilíbrio entre razão e emoção. "Algumas profissões privilegiam os aspectos racionais, mas se as emoções não tiverem bem resolvidas, haverá dificuldade na resolução dos problemas. Assim, quando a empresa faz uma reorganização ou mudança, estas terão sucesso quando também for planejado o envolvimento dos aspectos emocionais", ressalta Fela. Práticas da inteligência emocional Na Avon, a análise de perfil permite saber como os colaboradores lidam com suas emoções, além de mostrar o nível da satisfação nas atividades exercidas na empresa, segundo Eduardo Ribeiro, diretor de RH. A avaliação foi desenvolvida pela Thomas International. Aguinaldo Silva, presidente da empresa para América Latina, explica que são 24 linhas e que em cada uma há quatro adjetivos. O analisado escolhe o que mais se assemelha a ele e o que menos tem a ver com ele. Como exemplo, há em uma linha palavras como destemido, influente, submisso e tímido. Do resultado da combinação das palavras são gerados três gráficos que mostram como é a pessoa por natureza, como age sob pressão e como é sua atuação profissional. De acordo com Ribeiro, a pessoa, ao receber o resultado, tem o acompanhamento de alguém responsável pela avaliação. A ferramenta, ressalta ele, permite que se conheça cada funcionário, para assim saber como motivá-lo. "Não se pretende mostrar se tal pessoa serve ou não para exercer a função, mas como melhorar sua atuação no trabalho", afirma. A capacidade de ter um bom relacionamento com os outros é um fator essencial para o exercício de determinados cargos que exigem liderança. "É importante perceber na pessoa entrevistada a habilidade de trabalhar em equipe e sua contribuição para o desenvolvimento de uma equipe requer inteligência emocional. Também é essencial notar como ela controla suas emoções e sabe lidar com as emoções dos outros, pois o trabalho em equipe passa por momentos de pressão", analisa Carlos Alberto Diz, da consultoria Spencer Stuart. Para ele, dois elementos, a persistência e determinação, demonstram inteligência emocional. "Procuramos no passado ocasiões difíceis que a pessoa vivenciou e de que forma superou. É importante a vontade de ela tem em alcançar seus objetivos", explica. Até na Internet o tema inteligência emocional conquista espaço. Em janeiro deste ano, a ADP, em parceria com a T’AI Consultoria em Talentos Humanos, colocou na rede mundial exercícios de inteligência emocional. Segundo Luzia Garcia, gerente de produtos da ADP, o teste foi baseado no livro de Goleman e tem dez questões com quatro alternativas cada. Após respondê-las, o usuário da Internet tem uma síntese de qual alternativa demonstra maior inteligência emocional. Como exemplo, o avaliado é um suposto estudante universitário que tirou nota baixa em uma matéria, e a pergunta é: qual seria sua reação?. Há quatro alternativas: a) traçar um plano específico para melhorar a nota e seguir esse plano; b) resolver fazer melhor no futuro; c) diz a você mesmo que, na realidade, não importa a nota que você tira nessa matéria, e em vez disso, se concentra em outras onde você tira notas mais altas; d) fala com a professora e argumenta com ela para mudar sua nota. Nessa questão, segundo o teste da ADP, a resposta ideal é a letra A, pois reflete automotivação, isto é, a capacidade de formular um plano para superar obstáculos e seguí-lo. No que se refere aos testes que medem a inteligência emocional, a consultora Fela Moscovici não acredita que isto possa ser possível mensurar. "A avaliação deveria ser feita ao longo do tempo baseada no desempenho, nas atitudes e postura do avaliado. Mas não um julgamento sobre o certo e o errado. Deve haver um diálogo entre o analisador e o analisado com uma comunicação franca e uma observação continuada. Se uma entrevista de seleção for bem feita é possível descobrir qual a postura do entrevistado perante a vida e seu relacionamento com os outros", explica a consultora. Dentro desse contexto, Elizabeth Silveira Vecchio, da Magnus Consultoria, diz que deve haver bom senso sobre a questão. "Quando avalio um candidato que para a vaga conta mais sua qualidade técnica, por exemplo, dou ênfase à capacidade lógica e técnica, mas é claro que o lado emocional é importante. Seria melhor ainda se a pessoa tivesse uma excelente qualidade técnica e uma vida pessoal resolvida. Porém, o essencial é ter o profissional certo no lugar certo. É toda uma gama de complexidade, pois depende da situação. Mas o que não deve haver é radicalismo", analisa Elizabeth. Polêmico ou não, o debate sobre inteligência emocional tem mostrado que o ser humano é o verdadeiro diferencial nas empresas. E para ele poder utilizar todo seu talento, as emoções precisam ter um espaço garantido. Serviço: ADP (011) 225-4311/ Internet: www.adp.com.br; Avon (011) 546-7122; Editora Objetiva - 0800-224466; Fela Moscovici (021) 275-3669; Luiz Machado (021) 571-7098; Magnus Consultoria (051) 331-9269; Manager (011) 873-1311; Qualitymark Editora (021) 567-3311; Spencer Stuart (011) 284-0349; Thomas International (011) 981-8264. Dicas de Goleman Algumas dicas de Daniel Goleman para quem quer desenvolver sua inteligência emocional: - Conhecer sua próprias aptidões – autoconhecimento
- Controle dos seus próprios sentimentos/emoções, sabendo lidar com situações como ansiedade, tristeza e irritabilidade – autoconsciência
- Lidar com sentimentos/emoções dos outros. É a arte de relacionar-se – empatia
- Saber motivar-se – auto-aceitação
- Conseguir colocar as emoções a serviço de uma meta – intuição
RH EM SÍNTESE 15 – MARÇO/ABRIL 1997 – PÁGINAS 14 A 16 |