| Preocupadas com a situação de miséria do sistema previdenciário, que não garante um rendimento adequado aos seus beneficiários, muitas empresas estão adotando programas de aposentadoria para seus funcionários em vias de se aposentar. Esses programas funcionam como complementação da aposentadoria pública Sérgio Campos As empresas, nessa virada do século, estão ganhando uma nova consciência onde a preocupação com a qualidade total tem como foco principal o ser humano. Hoje a maioria das empresas se preocupa com a qualidade de vida dos seus profissionais e algumas delas vão além: mantêm esta qualidade de vida não só durante seu período ativo no trabalho, mas também na aposentadoria. Com isto há uma evolução na área de benefícios. O objetivo é garantir a qualidade de vida do funcionário após seu desligamento, através de programas de aposentadoria que possam dar estabilidade econômica e social em reconhecimento à sua dedicação à empresa. Dessa forma, a organização não deixa o profissional dependendo apenas da Previdência, que oferece uma remuneração limitada. Além disso, a situação da Previdência Social tende a piorar, porque aquela velha máxima de que o Brasil é um país de jovens já não existe mais. Até há alguns anos havia um aposentado para cada sete pessoas ativas; agora existem dois aposentados para os mesmos sete ativos. Até o final da década de 80 haviam 8,4 milhões de aposentados e após o ano 2000 serão mais de 14 milhões, o que representará quase 15% da população. Diante de todos esses problemas, cresce o número de empresas que estão adotando programas de aposentadoria visando beneficiar seus profissionais veteranos e em vias de se aposentar. Estes programas, na maioria dos casos, funcionam como complementação da aposentadoria pública. Na Mendes Júnior, por exemplo, já existe há quatro anos a Fundação Mendes Preve Sociedade Previdenciária, que administra um programa de aposentadoria onde todos os funcionários com mais de dois anos de casa têm direito de participar. Segundo Morel Lopes de Almada, diretor superintendente da fundação, o programa não visa apenas complementar a aposentaria, mas também ajuda em momentos mais radicais de enxugamento, amparando as pessoas desligadas. "Quando uma pessoa que trabalhou 30 ou 35 anos na empresa precisa ser desligada, por aposentadoria ou outros motivos, ela tem em geral de 50 a 60 anos. Essas pessoas terão dificuldades em encontrar alguma oportunidade no mercado" , explica Almada. Portanto o programa é uma forma da empresa agradecer a colaboração de tantos anos de trabalho deste funcionário e ainda ampará-lo financeiramente. A Companhia do Metrô de São Paulo está liberando seus primeiros aposentados agora e graças a uma antiga reivindicação dos metroviários e uma vontade de diretoria, também foi implantado um programa de aposentadoria. "O objetivo é manter o poder de compra dos funcionários, pois a aposentadoria oficial às vezes não garante nem 5% do salário que o profissional recebia antes de se aposentar, principalmente no caso dos executivos", afirma Fábio Mazzeo, presidente do Metrus-Instituto de Seguridade do Metrô. Os programas em geral garantem até 60% do salário. Dentro do programa de Metrô existe também um projeto que pretende garantir assistência médica aos aposentados, a exemplo do que ocorre com empresas como a Bayer, que garante aos seus funcionários, mesmo depois de aposentados, o direito ao plano de saúde da empresa. "Esta é uma forma de garantir a qualidade de vida aos funcionários e ao mesmo tempo dar segurança aos colaboradores que ainda estão na ativa, pois eles sabem que não serão abandonados", complementa Luís Fábio Soares da Cruz, gerente de desenvolvimento de RH da Bayer. Os programas de aposentadoria são cada vez mais necessários, pois segundo Almada, a crescente deficiência da Previdência Social, este tipo de programa torna-se um benefício indispensável, além de agregar valores à empresa. "Alguns funcionários nossos que receberam propostas para ingressar em outras empresas acabaram não aceitando ao analisar, entre outras coisas, que não ofereciam um programa de aposentadoria", conta. O diferencial para a competitividade é o elemento humano e, para Almada, sem dúvida é onde devemos investir para garantir a qualidade de vida das pessoas. Serviço: Mendes Jr. (31) 349-6698; Metrô de São Paulo (Metrus) (11) 239-4400; Bayer (11) 525-5414 Projeto muda as regras da aposentadoria O Ministério da Previdência e Assistência Social prepara um projeto de mudança nas regras da aposentadoria para tentar resgatar a viabilidade econômico-financeiro do sistema da Previdência. O projeto pretende substituir a aposentadoria por tempo de serviço por uma modalidade que combine o tempo de contribuição e a idade do trabalhador A aposentadoria por tempo de serviço é uma exceção em relação à experiência internacional, segundo Marcelo Viana Estevão de Morais, secretário da Previdência Social do Ministério, pois o único país que utilizava essa modalidade era a Itália, que suspendeu esse benefício no início de 1994. Na sua opinião, a concessão atual permite muitas brechas para que existam aposentadoria precoces e muitas vezes a lei acoberta certos tipos de fraudes. "Um exemplo de irregularidade é o caso do trabalhador rural. Ele tem condição facilitada para comprovar seu tempo de trabalho, bastando uma declaração do sindicato da categoria", afirma. Para Morais, essas mudanças são fundamentais para melhorar o sistema que tem hoje 15 milhões de beneficiários, que recebem piso de R$ 70,00 e teto de R$ 582,86. Serviço: Ministério da Previdência e Assistência Social (61) 224-2964 Poucas oportunidades para os profissionais com mais de 50 anos Existe uma enorme barreira no mercado de trabalho para os profissionais veteranos, principalmente em cargos executivos. As empresas preferem investir em jovens talentos, esquecendo da experiência dos profissionais com idade acima de 50 anos A oferta de 28 mil novos empregos no primeiro trimestre deste ano não mudou em nada a situação dos executivos com mais de 50 anos, pois as oportunidades para esses profissionais continuam escassas no mercado. Entre essas novas ofertas de emprego, 1.591 são profissionais de níveis de gerência e diretoria. Dentro deste contingente poderia se pensar que as empresas estão à procura de profissionais experientes, amadurecidos, e que já conhecem todos os macetes de como dirigir uma empresa. "Isto porém não é verdade", afirma o consultor Laerte Cordeiro & Associados, consultoria especializada em outplacement de executivos. "Não há interesse nas empresas em contratar profissionais acima de 50 anos. Isso acontece só em casos especiais, em virtude de amizade ou indicação, quando elas não se preocupam com a idade", ressalta. Em algumas áreas a barreira ao profissional acima de 50 anos é mais ferrenha, como no caso da informática, onde as carreiras começam muito cedo e aos 32 anos profissionais já são gerentes, "Uma pessoa de 52 anos não tem a cultura da informática; o cabelo branco não combina com a área", complementa cordeiro. Na área de marketing a abertura é maior e, dependendo da posição, como por exemplo um gerente, ainda se admite alguém com idade mais avançada. "Para gerente de produto a procura já é por profissionais abaixo dos 40 anos, pis em geral no marketing há uma expectativa de juventude", explica. Nas áreas financeiras e administrativas tem gente muito jovem, mas já é mais comum admitir-se pessoa na casa dos 50. Segundo Cordeiro, isso acontece porque as carreiras são mais lentas nesta áreas e existem várias peculiaridades e macetes que exigem muitas experiências. "As empresas não tem nada contra o seu gerente ou diretor de 50 anos, mas o que ocorre é que no caso de substituição, raramente acontecerá com alguém da mesma idade que o anterior", expõe Cordeiro. Segundo o consultor, as empresas não querem investir num profissional de 50 anos, recém-contratados, para colher frutos quando ele tiver 60 anos. "Eles querem colher frutos aos 38 anos, por isso investem em jovens", complementa. Para Cordeiro, há um ponto negativo nesta linha de conduta das empresas, porque desperdiça-se talentos e comete-se talentos e comete-se um equívoco ao passar a idéia de que um profissional acima dos 50 anos é ultrapassado e incapaz de gerir os negócios diante das novidades em termos de gestão e mercado. "O que é preciso entender é que se o profissional acima de 50 anos tem garra, gosta de desafios, adapta-se às mudanças, está atualizando quanto as novas abordagens, é capaz de exercer qualquer função em qualquer área", adverte. Nos Estados Unidos ou mesmo em países da América do Sul, como Argentina e Uruguai, as pessoas de muita idade estão trabalhando em todas as áreas. Portanto o consultor diz que esta mentalidade em relação ao profissional acima de 50 anos é uma característica do Brasil. O problema da oferta de emprego, no entanto, afeta a todos. Se não há oportunidades para os profissionais de 50 anos, também não há para jovens. "A situação fica mais caótica quando a reengenharia pega os que estão no meio e os põem para correr", ressalta Cordeiro. Os profissionais acima de 50 anos estão se ajeitando como podem, e segundo Cordeiro, os que não conseguem uma recolocação estão partindo para área de consultoria como prestadores de serviço. Outros estão abrindo negócios, como lojas ou franchising. "Para aqueles que não levam jeito para consultoria e não tem dinheiro para abrir um negócio, não sobrou nada", diz. O consultor aponta uma saída para esta situação do mercado de trabalho: o governo criar mecanismos para o desenvolvimento de empresas pequenas e médias, que poderiam usar a experiência desses profissionais acima de 50 anos e ainda dar oportunidade aos jovens que não encontram espaço. Serviço: Laerte Cordeiro & Associados (11) 572-8517 As mudanças no sistema previdenciário As mudanças nas regras da Previdência seguem um caminho polêmico, já que envolve, além dos interesses políticos, muitos setores da sociedade. Esta é uma novela que ainda vai dar muita audiência e promete ter muitos capítulos, principalmente depois da derrota do governo, no final de março último, na Comissão de Constituição e Justiça do Congresso. A comissão aprovou por 24 e 22 votos o desmembramento da reforma em várias partes, sendo que o governo queria dividir apenas duas partes. As emendas que nascerão estas subdivisões de proposta principal terão sua tramitação efetiva na Câmara a partir da aprovação da admissibilidade de cada uma delas. Veja, abaixo, os principais pontos do projeto que muda as regras da Previdência Social: - O tempo de serviço rural só pode ser contado para a concessão de benefício rural ou de benefício urbano de valor mínimo.
- Apenas o cônjuge, companheiro, filhos , pais e irmãos são considerados dependentes para fins de Previdência Social.
- As aposentadorias especiais passam a ser concedidas apenas aos trabalhadores expostos a condições perigosas e insalubres para a saúde.
- Eleva o tempo mínimo de contribuição (carência) para oito anos a contar de 1996.
- Acaba com a diferença entre a regra de cálculo dos benefícios decorrentes de acidentes do trabalho dos demais benefícios.
- Unifica, em 9%, as alíquotas de contribuição dos empregados e em 20% a dos contribuintes individuais ( autônomos).
- Os aposentados que retornam ao mercado de trabalho passam a contribuir novamente para a Previdência Social.
- Extingue o pagamento do auxílio-natalidade
- Extingue o pagamento dos pecúlios.
- Proíbe o acúmulo de benefícios previdenciários.
- Unifica o valor do auxílio-acidente em 50% do salário de contribuição do segurado.
- São extintas as aposentadorias especiais de jornalistas e aeronautas.
- Dado por encerrado o pagamento da pensão quando ocorre a emancipação do pensionista.
Exemplo a ser seguido O McDonald’s, gigante do setor de fast-food, desenvolve em alguns países do mundo programas de contratação de mão-de-obra especial e tem oferecido oportunidades para profissionais acima de 60 anos. No Brasil há um trabalho embrionário, em Brasília, onde há dois anos um dos franqueados conta com cinco funcionários acima de 65 anos em sua equipe. "Esta experiência, até o momento bem-sucedida, poderá servir no futuro como ponto de partida para um programa mais abrangente nesta área", afirma a assessora Adriana Ayres, da PubliCom, que presta assessoria de comunicação ao McDonald’s. Esta iniciativa isolada pode ser um exemplo a ser seguido. Serviço: McDonald’s - PubliCom (21) 266-1599 A importância dos planos de pós-carreira Os programas de aposentadoria aplicados atualmente em algumas empresas vêm garantir o lado financeiro do profissional que se aposenta, o que é uma grande ajuda se for considerada a situação de quem não tem este benefício e depende da aposentadoria pública. Este profissional que se aposenta, no entanto, não recebe nenhum amparo sobre como proceder no seu novo modo de vida. Isto pode ser desastroso para aqueles que não tem nenhum projeto, principalmente aos executivos que em geral querem continuar suas atividades após a aposentadoria. Visando orientar os executivos na elaboração deste projeto de vida, algumas empresas desenvolvem programas denominados de Plano Pós-Carreira. "Este trabalho visa basicamente construir um plano de vida e pós carreira para que o executivo esteja preparado para agir depois da aposentadoria, com planos definidos e uma visão esclarecida de suas possibilidades e a situação do mercado", explica Paulo Celso de Toledo Júnior, consultor da OBC Associados. O Plano Pós-Carreira é desenvolvido na própria empresa, onde são formados grupos com as pessoas em via de aposentar-se, e em geral inicia-se dois anos antes da aposentadoria. Dependendo do número de pessoas ou se há interesses muito diferenciados, pode ser formado mais de um grupo, visando agrupar pessoas com interesses parecidos. As atividades nos grupos visam orientar o profissional sobre como executar e aperfeiçoar seus planos pós-carreira e aqueles que ainda não têm nenhum plano serão auxiliados para elaborá-lo. As etapas que definem o trabalho em grupo são as seguintes: traçado de um panorama do mercado, para examinar quais as melhores atividades que se apresentam no momento; o que é preciso para abrir uma empresa; como construir uma pequena empresa; análise dos ramos para identificar qual é o negócio mais interessante; esclarecimento sobre prestação de serviço e terceirização; e transferência de conhecimento para seu substituto na empresa. "No grupo ocorre também uma troca de experiências e uma integração de afinidades, pois são pessoas que se encontram na mesma situação, vivenciando uma mesma etapa da vida", complementa Toledo. Este tipo de trabalho ajuda o profissional a enxergar a realidade da aposentadoria, segundo Maria Alves de Toledo Bruns, docente do departamento de psicologia e educação da USP- Ribeirão Preto. Para ela, a aposentadoria é esperada e encarada por muito como uma liberdade almejada, mas quando o profissional se aposenta ele se sente em geral perdido e em alguns casos sem a auto-estima por se achar fora do jogo ou ultrapassado. "As pessoas devem fazer um novo projeto de vida quando ainda estão exercendo suas atividades, para que a aposentadoria não signifique um fim, mas apenas uma nova etapa onde a vida pessoal e profissional continua" , ressalta Bruns. Empresas como Grupo Ultra, Nestlé, Rhodia e IBM aplicam este trabalho com seus profissionais em fase de aposentadoria e, segundo Toledo Júnior, o retorno tem sido positivo porque as pessoas se sentem mais segura sobre o que irão enfrentar. "O lado psicológico do profissional também é amparado, apesar do objetivo central não ser esse", observa. Outro fator positivo que Toledo destaca é quanto a despedida do profissional, pois a saída dele da empresa não ocorre como em muitos casos com mágoa, sentimento de abandono ou até desprezo. "Com este trabalho o funcionário que está saindo sente-se gratificado e transfere com prazer sua tecnologia e conhecimento ao seu substituto, não havendo assim uma descontinuidade do andamento organizacional". Serviço: OBC Associados (11) 247-1855; USP - Ribeirão Preto (16) 633-1010 RH EM SÍNTESE Nº 03 - ANO I - MAR/ABR 1995 - PÁGINAS 6 a 8 |