| É cada vez maior o número de trabalhadores que necessitam de auxílio para quitar suas dívidas. A solução pode estar nas cooperativas de crédito Lucilene Faquim Todo mês é a mesma coisa. Prestações atrasadas, cheque especial no vermelho, dívidas e mais dívidas. Este tipo de problema tem feito parte da vida de muitas pessoas desde a chegada do Plano Real, quando elas começaram a gastar mais do que seu salário permitia. Com isso vieram as preocupações, que passaram a acompanhar grande parte da população no seu dia-a-dia. Isto resultou em uma série de problemas, inclusive prejudicando o desenvolvimento do seu trabalho. Segundo Sonia Regina Rossi da Costa, analista de RH da Cecresp (Central das Cooperativas de Crédito do Estado de São Paulo), já está provado que a produtividade do homem oscila de acordo com a motivação e incentivo que ele recebe. Por esse motivo, as empresas começaram a ampliar o leque dos chamados benefícios espontâneos, não mais como forma de atrair, mas de manter talentos em seus quadros. "A preocupação atual das empresas é implementar programas de qualidade de vida para que todos estejam física, mental, intelectual e espiritualmente bem. Mas a dificuldade financeira acaba atrapalhando o desenvolvimento do ser humano", explica Sonia. Cientes do problema, algumas empresas resolveram ajudar seus funcionários através da formação de cooperativas de crédito, constituídas por seus empregados, melhorando as relações empresa/funcionários. "As cooperativas fazem empréstimos a juros mais baixos do que os cobrados no mercado e dão orientação financeira aos funcionários, propiciando soluções para imprevistos, sem onerar os encargos da organização", argumenta Sonia. Ela diz que as cooperativas de crédito vieram para amenizar e até mesmo solucionar determinados impasses funcionais, como turnover, absenteísmo e possíveis acidentes do trabalho. "Esses benefícios trazem satisfação ao trabalhador e tranquilidade à família", afirma. De acordo com empresas que implantaram esse benefício, o resultado tem sido significativo tanto em termos de produtividade quanto em satisfação dos funcionários. O Grupo BS Continental, que adotou a cooperativa de crédito há 11 anos, é um exemplo do desenvolvimento desse sistema de maneira bem-sucedida. Durante muito tempo a empresa assumiu, através do serviço social, os problemas financeiros de seus funcionários. "Mas verificamos que a implantação de uma cooperativa de crédito poderia ser a solução. Hoje isto é fato, pois a cooperativa é muito conceituada entre os nossos funcionários", argumenta Fabiana Rui Silva, coordenadora e contadora da Credicont - Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Funcionários do Grupo BS Continental. A cooperativa de crédito funciona como se fosse uma poupança, onde o funcionário contribui mensalmente com 1% de seu salário, formando assim o capital. Quando se desliga da empresa, ele recebe seu capital acrescido de juros e correção monetária, e mais as sobras do final do ano. A cooperativa oferece empréstimos que podem ser pagos em até 15 meses. A BS Continental possui 3.848 funcionários, sendo que 3.615 estão associados à cooperativa. Conforme Fabiana, o número tem aumentado a cada ano, devido ao grau de abrangência. Ela conta que hoje o sistema proporciona melhoria da qualidade de vida dos funcionários através de recursos para construção, reforma da casa, lazer, doenças, entre outros. Em 1996, a cooperativa liberou 4.305 empréstimos, perfazendo um total de R$ 2.832.846,73. Nos primeiros seis meses de 97, o valor dos empréstimos já tinha atingido R$ 2.020.819,78. "Poderíamos dizer que o nível de satisfação é praticamente de 100%, uma vez que a cooperativa está crescendo", ressalta Fabiana. Ela diz que o resultado também é positivo para a empresa, pois o funcionário satisfeito apresenta melhor rendimento profissional. A CooperJohnson - Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Empregados da Johnson & Johnson, que completou 25 anos em janeiro de 98, contou neste período com 245 mil solicitações de empréstimos. Hoje com um patrimônio líquido de US$ 7.044.800,00, a CooperJohnson oferece aos seus associados diversos serviços, entre os quais o plano de empréstimo parcelado, onde pode solicitar de meio a seis vezes o valor do seu salário. O pagamento pode ser feito em até 24 meses, o valor a ser pago é descontado no holerite do funcionário e os juros cobrados estão abaixo do praticado no mercado. No caso do Cooperfix, outro tipo de empréstimo da CooperJohnson, o associado pode emprestar até duas vezes o valor de seu capital e pagar em até 60 dias. Neste caso, os juros são pré-fixados e o débito é efetuado em conta corrente. Já no Jet-Cred, mais um tipo de empréstimo, o interessado recebe uma quantia pré-fixada, que hoje está em R$ 150,00, paga em até 60 dias e os juros também são pré-fixados. No caso da Credicooper, uma linha de financiamento para aquisição de computador, seguros, colônia de férias e aparelhos odontológicos, o pagamento pode ser feito em até 24 meses, com TR mais juros. Já no caso das aplicações, o associado pode contar com o plano de capitalização, onde pode aplicar mensalmente um valor mínimo de R$ 4,69. "Neste caso não há valor máximo estipulado e essa capitalização vai formando um fundo individual, chamado capital, que recebe sobras anuais. O objetivo é pagar por esse fundo uma remuneração igual ou superior à poupança", diz Luiz Carlos Dutra Jr., gerente de assuntos públicos da Johnson & Johnson. Já a Cooperinvest é uma aplicação financeira com juros pré-fixados. Na primeira vez o dinheiro é aplicado em até 44 dias. Nas demais aplicações o rendimento é de 30 em 30 dias. "Neste caso, o dinheiro aplicado e o rendimento são debitados e creditados na conta corrente do associado", explica Dutra Jr. Os associados da CooperJohnson também podem fazer seguro de automóvel, de residência e de vida, em convênio com três corretoras. Segundo Dutra Jr., hoje a cooperativa conta com 3.950 associados e em 1996 o valor dos empréstimos foi de US$ 17.281.500,00, atendendo 16.373 solicitações. A Conglomerados Battistella, que adotou o sistema de cooperativa em 1991 para auxiliar seus funcionários na quitação de suas dívidas, também tem alcançado resultados positivos. Dos 3.500 funcionários da empresa, 2.750 são cooperados. "Este número vem aumentando a cada ano, pois na medida em que os funcionários passam a conhecer o trabalho e os benefícios, a adesão cresce", diz Carlos Alberto Silva Camargo, gerente da cooperativa. Os associados podem contar com 14 linhas de crédito, sendo que cada uma possui um produto, juros e formas de pagamento diferenciados. No plano normal, o associado pode emprestar até o valor de quatro salários e o pagamento é feito em 24 meses, com taxa de juros mais TR. No plano "ligeirinho", o empréstimo é de até 20 salários com 30 dias para pagar. Os cooperados da Battistella contam ainda com várias outras linhas de crédito: volta às aulas, 13º salário, IPVA, eletrodomésticos, motos, construção, bicicleta, telefone, clube de férias, filtros de água, veículos novos/usados e seguro de veículos. Em 1996, a cooperativa emprestou R$ 3 milhões e só no primeiro semestre de 97 contabilizou R$ 2.087.926,54, segundo Camargo. Já a Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Empregados da Lacta liberou, em 96, R$ 3.403.937,00 em empréstimos pessoais e financiamentos. Desse valor, um total de R$ 1.393.865,00 foi destinado à construção e reforma de imóveis. "A cada ano as adesões vêm crescendo. Em 1995 tínhamos 2.817 cooperados. No ano seguinte foram 2.986, número que pulou para 3.071 adesões em 97", destaca Luiz Antônio Vieira, chefe da cooperativa. Outra empresa que adotou o sistema de cooperativa, e vem tendo bons resultados, é a Rolamentos Sag, com 1.000 funcionários. "No segundo semestre de 1995, percebemos que tínhamos muitos casos de inadimplência na empresa e isso vinha refletindo na produtividade dos funcionários. Foi quando resolvemos interferir e ajudar", explica José Roberto de Melo, gerente de RH da empresa. Essa atitude, segundo Melo, 0 0jdfjgjkfkghfjghjhftem conquistado excelentes resultados, pois além de criar um clima de satisfação entre os funcionários, tirou a verba que a empresa disponibilizava para estes casos, possibilitando investimentos em outras áreas. Com 600 associados, a cooperativa da Sag vem emprestando a cada mês de R$ 80 mil a R$ 100 mil. A contribuição dos cooperados varia de 1% a 20%, de acordo com seu salário nominal, sendo que o funcionário é quem vai determinar o quanto será descontado. Já Sérgio Furtado, gerente financeiro da Goodyear do Brasil, que possui 4.650 funcionários e também adotou o sistema de linha de empréstimos, diz que a empresa não teve casos de inadimplência de funcionários e que a iniciativa representa mais um benefício que a Goodyear vem oferecendo aos colaboradores. "Através da previdência privada resolvemos abrir uma linha de empréstimos aos funcionários, que funciona mais como um benefício proporcionado pela empresa", explica. Neste caso, os empréstimos também são relativos ao salário do contribuinte, com pagamento em até seis meses, que são descontados no holerite. Serviço: Cecresp (011) 228-0422; Conglomerados Battistella (011) 835-9133; Johnson & Johnson (011) 817-8122; BS Continental (011) 6915-3001; Goodyear do Brasil (011) 281-4223; Lacta (011) 240-0211; Rolamentos Sag (011) 525-8769 | Alternativa para o trabalhador Obter empréstimos a juros baixos, com prazo especiais para o pagamento e sem burocracia, são algumas das vantagens que o sistema de cooperativas de crédito oferece aos seus cooperados. A Cecresp - Central das Cooperativas de Crédito do Estado de São Paulo, constituída em 1989 e sucessora da Fecresp - Federação das Cooperativas de Economia e Crédito Mútuo do Estado de São Paulo e da Feleme - Federação Leste Meridional das Cooperativas de Economia e Crédito Mútuo, conta atualmente com 185 cooperativas filiadas no Estado de São Paulo e 11 conveniadas de outros estados, como em Mato Grosso do Sul, Maranhão, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. "O objetivo principal é promover a economia mútua e conceder empréstimos aos cooperados", explica Humberto Gava, gerente do departamento técnico da Cecresp. A viabilização para a constituição de uma cooperativa é feita pelos trabalhadores, mas a empresa pode ajudar no processo. A Cecresp dá apoio aos interessados através da elaboração de todo o processo de constituição, que consiste na ata, estatuto social, recibo de depósito, formulários de atos de eleição e nomeação a cargos executivos. O custo do trabalho é de R$ 2.760,00. "Hoje contamos com cerca de 195 mil cooperados", diz Gava, ressaltando que o número de cooperados oscila de acordo com a situação das empresas. As cooperativas de crédito são fiscalizadas pelo Banco Central, internamente, conforme a Lei 5.764/71, e elas devem ter um conselho fiscal eleito em assembléia geral. Além disso, as cooperativas são fiscalizadas pela Cecresp, que faz uma verificação preventiva. Segundo Gava, até setembro de 1997, foram concedidos cerca de 319.730 empréstimos, no montante de R$ 317.666.215,00, sendo que a média desses empréstimos é de R$ 950,00. Gava explica que a adesão do funcionário é voluntária e quando associado passa a ter direitos e deveres, conforme o estatuto. A capitalização é definida pelo cooperado, não passando de 1% a 5% de seu salário nominal, e o desconto do empréstimo é efetuado em seu holerite. Serviço: Cecresp (011) 228-0422 | | Cooperativas criam banco Para facilitar o trabalho e possibilitar redução de custo de compensação de documentos e disponibilização de maiores recursos para empréstimos aos cooperados, foi criado recentemente o Bancoob - Banco Cooperativo do Brasil. Controlado por 11 centrais de cooperativas dos estados de Minas Gerais, Espiríto Santo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia, Distrito Federal, Goiás e São Paulo, o Bancoob iniciou em janeiro último suas operações com crédito urbano no Estado de São Paulo através da compensação de cheques e outros documentos. Para a criação do banco, as 11 centrais de cooperativas, juntamente com suas filiadas, investiram cerca de R$ 9 milhões. Nesta primeira fase de implantação, o banco atuará em 548 cooperativas, representando 580 mil associados. Além disso, movimentará cerca de R$ 350 milhões em patrimônio líquido, R$ 330 milhões em depósitos e R$ 800 milhões em empréstimos. Em São Paulo, o Bancoob opera inicialmente com 42 cooperativas de crédito, sendo que a implantação das operações com estas cooperativas acontecerá gradativamente com o apoio do Bancoob e da Cecresp, para que todas possam oferecer uma estrutura adequada aos seus associados. A implantação do banco cooperativo, segundo informações da Cecresp, proporcionará autonomia ao cooperativismo de crédito, já que o sistema antes dependia dos bancos comerciais alheios ao sistema, garantindo assim agilidade na prestação dos serviços. Serviço: Bacoob (011) 228-0422 | RH EM SÍNTESE Nº 20 – JAN/FEV 1998 – PÁGINAS 46 A 48 |